Walter Galvão: mestre, encantador de ilusões, imortal

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Você foi um menino correndo contra o tempo para torná-lo a seu favor. Nem mesmo a queda da cabeleira fez com que aplacasse a fome de desbravar universos desconhecidos.

Cada pessoa é um universo. No seu, sempre em órbita a clara estrela reluzente, guia, menina dos seus olhos, que te arrebatava de orgulho e devoção. E quando você se perdia, ela te trazia ao eixo. Um pedaço de ti, em imagem e semelhança. Havia também aquele planeta guerreiro, a quem sempre foi leal. Planeta-lar, cumplicidade, beleza, admiração e amor. Jardim que contemplava e cultivava, à sua maneira.

Tudo convergia no prazer de conhecer, provocar, ressignificar. Um atleta nato. Ginasta das palavras. É bem verdade que incompreendido, talvez pelos contorcionismos narrativos oral e escrito. Mas sem tais acrobacias não haveria tamanha beleza. Tamanha grandeza.

Grande na simplicidade. A sofisticação que emanava de ti era desprendida de marca, maquiagem. Por certo, a discrição era sua maior virtude.

Simples e composto. Um contraste ambulante. Quem diria que, tão lorde, teria prazer em sentar-se naquelas cadeiras de plástico do Mercado Central para almoçar e tomar a cachaça mais barata do pedaço como um néctar? Quem diria que com aquele ar de fã de música clássica apreciasse e cantarolasse baixinho as músicas do Calypso?

Encantador de ilusões. Aprendeu a ter destreza em manipular cenários como poucos. Estratégia, cálculos (quânticos ou não). Tanto faz. Cirúrgico em diagnosticar realidades. Propositivo. Oráculo para soluções. Impaciente para assumir o que era: um professor. Mestre.

Era um dos deuses mais lindos. Uma alma fascinante. Como não admirar?

Por muito tempo quis ser alguém com ao menos 1% de sua genialidade. Fracassei. Mas ficaram vários aprendizados, vícios de linguagem, como aquele que abomina o “segundo fulano” em um texto jornalístico. Quem é o primeiro? E o “cerca de”? Cerca de que? De arame?

Por muito tempo sangrei com a dor. Estás tatuado em mim. Ouvi que ainda dá tempo de reduzir a velocidade dos abismos. Ontem, hoje e sempre serei grata. Da primeira oportunidade no jornalismo, nos conselhos, ensinamentos de vida. Por tudo e tanto. Obrigado por existir, Galvão. Você é imortal.

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